Especialista destaca que a tecnologia ‘wearable’ deve servir como ferramenta de apoio para incentivo à continuidade das atividades físicas e decisões mais seguras sobre a saúde individualizada.
Relógios inteligentes, anéis conectados, monitores contínuos de glicose e outros dispositivos vestíveis deixaram de ser tendência para se tornarem parte da rotina de milhões de pessoas. Nunca houve tanta informação disponível sobre sono, frequência cardíaca, gasto calórico, recuperação física e níveis de atividade, no entanto, em meio à explosão dos chamados wearables, especialistas alertam que os dados, por si só, não substituem a interpretação profissional.
Para o profissional de Educação Física e especialista em fisiologia do exercício Jauan Anselmo, a tecnologia trouxe avanços importantes para a promoção da saúde, mas também criou um novo desafio: pessoas cada vez mais preocupadas com números e métricas, sem compreender o que elas realmente significam.
“A tecnologia representa uma evolução extraordinária porque permite acompanhar aspectos que antes só eram avaliados em clínicas ou laboratórios. Porém, os dados não podem ser encarados como sentença. Eles são ferramentas que ajudam a orientar decisões, ajustar protocolos de treino, recuperação e hábitos de vida. O problema começa quando a pessoa passa a acreditar que o relógio conhece mais o próprio corpo do que ela mesma”, explica.
Segundo relatórios recentes da International Data Corporation (IDC), o mercado global de dispositivos vestíveis segue em forte crescimento, com mais de 611 milhões de unidades comercializadas em 2025. No Brasil, o segmento está entre os que mais crescem na América Latina, impulsionado principalmente por smartwatches e dispositivos voltados à saúde digital, com vendas (estimadas) de 5,5 a 6 milhões de unidades no ano passado.
Monitoramento de frequência cardíaca
Entre os diversos indicadores monitorados pelos wearables, um dos que mais ganhou destaque nos últimos anos é a Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC), conhecida internacionalmente como Heart Rate Variability (HRV).
A métrica mede as pequenas variações de tempo entre os batimentos cardíacos e é considerada um importante indicador do funcionamento do Sistema Nervoso Autônomo, responsável por regular processos como recuperação física, estresse, fadiga e adaptação ao treinamento.
De acordo com o especialista, que está à frente da plataforma virtual Jauan Treinos – com metodologia voltada à ação personalizada –, acompanhar a VFC pode ajudar profissionais e praticantes a entenderem melhor o estado de recuperação do organismo, permitindo ajustes mais precisos nas cargas de treinamento.
“Quando analisada corretamente, a VFC ajuda a identificar sinais de fadiga acumulada, excesso de treinamento, estresse psicológico e até alterações relacionadas ao sono. Mas ela nunca deve ser interpretada de forma isolada. É necessário observar o contexto, o histórico do indivíduo e outros marcadores para tomar decisões seguras”, ressalta.
‘Infoxicação’ de dados passam a gerar ansiedade
Se por um lado a tecnologia oferece mais informações, por outro ela também tem contribuído para um fenômeno crescente conhecido como ortossonia, termo utilizado para descrever a obsessão por atingir métricas consideradas perfeitas de sono e recuperação.
O conceito foi descrito inicialmente em estudo publicado em 2017 no Journal of Clinical Sleep Medicine, que observou pacientes excessivamente preocupados com dados fornecidos por rastreadores de sono, mesmo quando não apresentavam problemas clínicos relevantes.
Pesquisas mais recentes na área de saúde digital apontam que usuários frequentes de dispositivos de monitoramento podem desenvolver maior preocupação com indicadores de estresse, recuperação e qualidade do sono, criando ciclos de ansiedade relacionados aos próprios dados coletados.
Atuante há mais de 10 anos no mundo fitness e de bem-estar, Jauan pontua o comportamento tem sido cada vez mais comum e é perceptível entre os alunos, o que serve como um sinal de alerta:
“Vejo pessoas acordando e a primeira coisa que fazem é consultar a nota do sono. Se o número aparecer abaixo do esperado, elas já acreditam que terão um dia ruim, mesmo se estiverem se sentindo bem. Isso gera uma dependência psicológica da métrica. O dado deve servir para orientar, não para controlar emocionalmente a pessoa”
Estudos também indicam que dispositivos de monitoramento nem sempre conseguem captar adequadamente estados emocionais complexos, reforçando a necessidade de interpretar as informações com cautela e dentro de um contexto mais amplo.
Apesar dos cuidados necessários, os wearables também têm demonstrado potencial para estimular hábitos saudáveis. Pesquisas conduzidas por instituições brasileiras, a exemplo da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), apontam que notificações, metas diárias e feedbacks instantâneos podem aumentar a motivação para a prática regular de atividade física, especialmente em indivíduos sedentários.
Segundo o profissional, esse estímulo externo pode ser uma excelente porta de entrada para um estilo de vida mais ativo.
“O relógio avisando para levantar, caminhar ou completar uma meta diária pode funcionar como um gatilho positivo. O desafio é transformar essa motivação externa em motivação interna, fazendo com que a pessoa passe a se exercitar porque entende os benefícios e sente prazer na prática, e não apenas porque um dispositivo mandou”, completa.
Papel do profissional continua indispensável
Mesmo diante da crescente sofisticação dos dispositivos, Jauan Anselmo reforça que a interpretação dos dados continua sendo tão importante quanto a coleta das informações. Para ele, os wearables devem ser vistos como aliados do processo de cuidado, mas jamais como substitutos da avaliação profissional.
“Hoje temos acesso a uma quantidade gigantesca de dados e o que realmente faz diferença é saber análisá-los. Um mesmo número pode significar coisas completamente diferentes dependendo da rotina, da idade, do nível de treinamento, da alimentação e até do momento emocional da pessoa. O olhar técnico e individualizado segue sendo insubstituível”, conclui.
À medida que os wearables se tornam cada vez mais presentes no cotidiano, especialistas defendem que o futuro da saúde passa pela capacidade de transformá-los em informações úteis, contextualizadas e capazes de promover mudanças sustentáveis no comportamento e na qualidade de vida.
Foto – Reprodução/Magnific




