Especialista alerta que buscar a concepção natural é importante, mas idade exige atenção ao momento de intervir
A busca por uma gravidez mais natural, com investigação das causas da infertilidade e mudanças no estilo de vida, ganhou espaço na medicina reprodutiva. O cuidado é válido, mas pode se transformar em problema quando adia uma avaliação especializada em mulheres cuja idade já reduz as chances de concepção. A infertilidade atinge cerca de uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para a médica Wendy Delmondes, coordenadora do Centro de Reprodução Humana do Hospital Mater Dei Salvador (HMDS), investigar possíveis causas e melhorar as condições de saúde do casal devem fazer parte da assistência. “Sempre que possível, devemos tratar causas subjacentes e otimizar o estilo de vida. Alimentação adequada, atividade física, abandono do tabagismo e controle de condições que possam interferir na fertilidade são importantes”, explica a médica. “A preocupação é não negligenciar com o tempo nesse momento crucial para não perder a oportunidade de maiores chances de gravidez”, completa.
A primeira diretriz global da OMS sobre infertilidade, publicada em 2025, também recomenda hábitos saudáveis e uma abordagem progressiva, orientada pelas causas identificadas e pelas características de cada paciente.
O limite da idade – O adiamento da maternidade ajuda a tornar essa discussão ainda mais relevante. Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a idade média da mulher no primeiro parto passou de 26,4 anos, em 2000, para 29,5 anos, em 2022. Em países como Itália e Espanha, chegou a cerca de 32 anos e, na Coreia do Sul, a 33.
No Brasil, dados mais recentes das Estatísticas do Registro Civil mostram movimento semelhante: em 2024, 39,5% dos nascimentos foram de mães com 30 anos ou mais, contra 24,3% duas décadas antes, segundo o IBGE. Na Bahia, o perfil também chama atenção. Levantamento da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), elaborado com dados do DataSUS e da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), mostra que, entre as mulheres que tiveram filhos em 2024, 34% estavam entre 30 e 39 anos e 4,8% tinham 40 anos ou mais.
É justamente nesse ponto que Wendy destaca um limite que, segundo ela, precisa ser apresentado com clareza às pacientes. “Com o avanço da idade, ocorre uma redução progressiva tanto da quantidade quanto da qualidade dos óvulos, especialmente da sua estabilidade cromossômica. Não existe hoje tratamento capaz de reverter o envelhecimento do óvulo. Nem intervenção nutricional, hormonal ou cirúrgica consegue devolver ao ovário a idade biológica que ele tinha anos antes”, afirma. A Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) considera a idade feminina o mais importante preditor isolado de fecundidade e aponta queda mais significativa das chances de gravidez e nascimento após os 35 anos.
Tempo também conta – A fertilização in vitro (FIV) também não interrompe o envelhecimento ovariano. A técnica, porém, permite obter múltiplos óvulos em um mesmo ciclo de estimulação e pode ampliar as possibilidades de gravidez em situações nas quais esperar pela concepção espontânea representa perda de tempo reprodutivo. “A FIV não rejuvenesce os óvulos. O alerta é outro: não perder o momento oportuno para intervir. Dependendo da idade e do diagnóstico, alguns meses podem fazer diferença na estratégia e nas chances de sucesso”, ressalta Wendy.
As próprias recomendações internacionais levam a idade em consideração. A ASRM orienta investigação da infertilidade após 12 meses de tentativas em mulheres com menos de 35 anos, após seis meses a partir dos 35 e avaliação ainda mais imediata para mulheres acima dos 40 anos ou quando já existe uma condição associada à infertilidade. Métodos como aplicativos, observação do muco cervical e testes de ovulação podem ajudar a identificar o período fértil, mas não devem substituir uma avaliação médica quando o tempo recomendado de tentativa já foi ultrapassado.
Para Wendy, há ainda um componente emocional que merece atenção. “Vemos mulheres passando meses controlando cada detalhe do ciclo, fazendo inúmeros testes, programando relações sexuais, impondo restrições e se culpando porque a gestação não aconteceu. Isso pode gerar ansiedade e exaustão. Buscar a gravidez natural não deve significar insistir indefinidamente sem analisar as chances reais de cada estratégia”, diz. A OMS reconhece o impacto psicológico da infertilidade e recomenda que o cuidado inclua suporte psicossocial ao longo do tratamento.
A orientação, portanto, não é abandonar a tentativa de concepção natural nem antecipar indiscriminadamente técnicas de reprodução assistida. É preciso avaliar idade, reserva ovariana, histórico do casal, causas identificadas e perspectivas de cada alternativa. “Como médica especialista em reprodução humana, eu preciso oferecer informação científica sobre benefícios, limitações e taxas de sucesso para que o casal participe da decisão. Preservar a possibilidade de uma gravidez natural é importante, mas preservar a chance de ter um filho biológico também é. O equilíbrio está em não deixar o tempo passar sem uma análise crítica e individualizada”, conclui a médica do HMDS.
Assessoria de Imprensa:
Cinthya Brandão – (71) 99964-5552
Carla Santana – (71) 99926-6899


